Vox Dei nº 444 de 26 de março de 2017

"Jesus cura a cegueira dos homens."

Amados irmãos e Irmãs,

No evangelho de hoje, percebemos Jesus curando um homem cego de nascença e fazendo com que a vida deste homem tome um novo rumo. E vamos nos deter justamente neste fato, pois o diferente aqui neste contexto é que a iniciativa não foi do homem, mas sim de Jesus. A palavra fala que Jesus ao passar viu um homem cego de nascença.....Jesus “cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego”.

Com certeza, aquele homem nem acreditava mais em uma solução para o seu estado já que durante toda a vida viveu desta forma. Só conseguia enxergar o nada ou uma grande escuridão e esta era sua companheira. Já devia também saber muito bem como se virar. A vida e as dificuldades ensinam e acabamos por nos acostumar!

Nos Evangelhos, não há mais bela parábola de nossa vida de fé do que esta do cego de nascença. Não há roteiro mais significativo de nossa existência de crentes. Tal como o cego, nós fomos ‘batizados’, tivemos os olhos lavados na piscina do Enviado. Para quase todos nós, nosso batismo aconteceu na noite de nossa primeira infância.

Foi preciso que assumíssemos nosso batismo em uma ausência quase total de evidências, até mesmo em uma solidão que é a de nossa própria liberdade! É preciso que Jesus se apague de nossa existência, exatamente para que nossa liberdade seja acionada. Às vezes, precisamos caminhar sozinhos na escuridão da noite, enfrentar as dúvidas, os questionamentos que abalam e caminhar em nossa vida cristã ou nosso engajamento religioso apoiado apenas na única palavra que nos foi dita: “Vai lavar-te na piscina do Enviado!”

A fé do discípulo não é um itinerário que se banha na evidência. Precisamos fazer frente às contradições da vida – as de fora e, mais ainda, aquelas que vêm do interior. Teríamos, de fato, bons motivos para abandonar nosso compromisso à beira da estrada: nossos fracassos, insuficiências, nossas mediocridades.

 

A tentação mais sutil que nos ronda não são as grandes tentações do tipo de Santo Antão: é o desânimo do “afinal, pra quê”? É preciso espantar esse demônio, porque ele nos leva à mediocridade ou à demissão. E só posso fazê-lo saindo de mim mesmo, assumindo minha própria fraqueza. Sim, sou pecador… Sou difícil na comunidade, na família, indolente em meu serviço, lento a caminhar. Eu sinto e conheço minhas feridas… E daí? Minha deficiência pode ser o lugar onde vai-se manifestar a obra de Deus. Jesus acredita no futuro do cego que eu sou: ‘É para que nele se manifestem as obras de Deus’ (Jo 9,3). Sou uma terra em obras, uma terra de futuro.