Vox Dei nº 431 de 25 de dezembro de 2016

A história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o neopaganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar. Juntam-se à essa história vários personagens.

No tempo de Jesus, os pastores eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo, por isso não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que, em Lucas, são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história : o nascimento e a ressurreição do Salvador. O Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía.

A mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens por Ele amados” cria dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom – onde todos possam “ter vida, e vida em abundância!” (cf Jo 10,10)

É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria conservava isso e meditava tudo em seu coração”. Lucas enfatiza que Maria meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos – se torna peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer, tão bem promovidos pelo marketing comercial – mas retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo duma verdadeira “alegria para todo o povo”, – nasceu para nós o Salvador!