Vox Dei nº 427 de 27 de novembro de 2016.

Iniciamos um novo Ano Litúrgico, que nos prepara para o Natal, através do Advento, o qual tem o significado de “vinda” ou “chegada”, é a espera da vinda futura do Senhor. “Vem Senhor Jesus!”, diziam os primeiros cristãos. Nós, não mais primeiros cristãos, quase perdemos o significado desta invocação. Hoje, portanto, entramos no tempo da memória e da espera pela vinda do Senhor, mistério anunciado pelos profetas, profissão de fé que rezamos no Credo. Neste Tempo, a Igreja convida a nos convencermos da vinda futura do Senhor, por isso devemos perder a ideia consumista do Natal: uma das épocas que mais valorizamos a aquisição das coisas materiais e supérfluas (não é à toa que é quando mais se gasta). Esta ideia seria sem sentido se não conseguíssemos entender que há uma outra vinda: a do Senhor em sua glória. Por isso, vigiemos e não percamos este tempo de graça assumindo uma atitude coerente com o batismo recebido.

É por este motivo que Jesus Cristo nos conscientiza da brevidade da nossa vida, bem como da transitoriedade dos nossos empreendimentos e da nossa experiência com as coisas terrenas. A nossa existência aqui na terra tem prazo determinado e a porta será fechada como no tempo de Noé: “quando todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”, Noé entrou na arca, fechou a porta e ninguém percebeu até que veio o dilúvio e arrastou a todos.

Inesperada e surpreendente será a vinda de Jesus. Com um exemplo tirado do cotidiano, Ele mostra que as circunstâncias da vida terrena são iguais para todos. Com a vinda do Senhor, haverá uma radical separação: aqueles que estão preparados para ela serão acolhidos na sua comunhão, os outros serão excluídos. A mensagem do Evangelho nos motiva a amar. É uma mensagem encorajadora e não ameaçadora. Devemos levar em conta que o nosso destino final depende do nosso comportamento, que não é o de desperdiçar a graça de Deus, mas de preservá-la com a nossa prática do amor.

Não podemos cultivar em nós a teoria de que as coisas com as quais nos ocupamos neste mundo são eternas e podem tomar o lugar sagrado de Deus em nosso coração. A Ele, pertencem a nossa vida e o nosso viver, por isso, enquanto estivermos “casando”, “trabalhando”, “bebendo”, de uma forma exclusivamente humana, nós estaremos correndo o risco de sermos pegos de surpresa quando o “Filho do Homem” vier.

O tempo do Advento nos é propício para que tomemos consciência da nossa realidade existencial passageira e, acolhendo Jesus Menino no Natal, nós nos preparemos também, para a Sua segunda vinda. Agora, enquanto temos vida ou na hora da nossa morte, não importa quando, o importante é que estejamos preparados, “porque, na hora em que menos pensares, o Filho do Homem virá!”. Teremos acesso à “arca” se, como Noé, estivermos dispostos a fazer tudo por amor com o intuito de realizar aqui na terra, não a nossa vontade, mas a vontade de Deus, assim como Ela acontece no céu. “Vinde, Senhor Jesus”!